Hoje abordo um assunto pouco divulgado e também pouco pensado entre nós: a adicção seca. O que é isso? Muitos se indagarão.
Adicção é vício, mania, dependência, submissão e na maioria das vezes está relacionada às drogas lícitas ou ilícitas.
Quantas vezes nos deparamos com pessoas que não largam seus celulares, nem para comer ou ir ao banheiro. Aí inicia a dependência. No mundo atual necessitamos estar sempre conectados, ligados. E dessa forma, podemos estar pondo em risco o que nos é importante: as relações pessoais.
As redes sociais, a internet, nos facilitam muito a comunicação, mas também nos impessoaliza, nos afasta do calor humano, do contato visual, do afeto.
Tudo nos parece bonito e maravilhoso. Quantas horas por dia seu filho passa jogando videogame, falando com pessoas que muitas vezes nem conhecemos? Quantas pessoas, mesmo adultas, já foram enganadas por falsas personalidades?
A adicção seca nada mais é do que estabelecer um íman com o mundo virtual. “Não podemos mais viver sem ele”.
Porém, tudo é uma questão de dose e controle. Podemos desfrutar de um bom espumante, sem que nos tornemos dependentes do álcool. Podemos saborear uma boa comida, sem que dela façamos uma compensação de nossas frustrações e no tornemos obesos mórbidos. E também podemos usufruir da tecnologia, sem nos escravizarmos, sem sermos levados ao isolamento, sem nos desligarmos do mundo real.
Essa questão exige muita atenção dos pais, no sentido de acompanhar o cotidiano de seus filhos. Observar o cansaço, a falta de disposição, a ocupação de seu tempo em atividades que possam ser coletivas e prazerosas, envolvendo familiares, onde haja a troca, a competição sadia e afetiva.
Especialistas alertam que a “cyberdependência pode desligar o sujeito do mundo real, provocar lesões e cortar o elo com a vida”. Exemplos reais de mães que nos relatam que “se deixar, ele fica em frente ao computador o dia inteiro, não brinca, não para nem na hora das refeições”.
Conforme a idade, isso pode ocasionar até atraso cognitivo, pois o excesso de mundo virtual poderá dificultar a criança de criar espaços de manobra para uma conversa, fantasiar ou até mesmo, perceber situações de perigo.
E aquelas que muitas vezes se transformam nos próprios personagens do mundo virtual? Esse risco existe.
A psicóloga Rosa Maria Farah, coordenadora do Núcleo de Pesquisa de Psicologia em Informática da PUC-SP, nos aponta que se a criança fica três horas por dia no computador e, nesse período, ela pesquisa, entra nas redes sociais, baixa uma música, isso não é negativo. Ela está realizando o uso amplo dessa ferramenta, acrescentando coisas novas para sua vida.
O importante é a dose e o acompanhamento dos pais.
Nos adolescentes, estar alerta se faz necessário, pois os mesmos nessa fase já são mais reclusos e o uso do mundo virtual incentiva isso. Não são os conteúdos disponíveis que viciam, mas sim o propósito que a pessoa tem pelo mundo virtual. Isso propicia a perda da capacidade de lidar com eventos do cotidiano, do face a face, da troca afetiva, do calor humano.
Computadores e celulares não precisam ser vilões.
Crianças com déficit de atenção, por exemplo, podem usar games para aprender a fazer foco. Neuropediatras ressaltam que o uso desses instrumentos é essencial, mas necessita de acompanhamento e que os pais saibam exatamente o que os filhos estão fazendo, dialogando com eles sobre os riscos do ambiente virtual.
E para os adultos, cabe maior rigor e controle em suas escolhas, canalizando a internet para seu uso racional e equilibrado, sem deixar de estar presente nos momentos de confraternização, troca de ideias, de uma boa conversa, de assistir um bom filme ou mesmo, tirar uma soneca reparadora de seu cotidiano de trabalho.