Constantemente me deparo tanto no consultório, como no dia a dia, com conflitos advindos das relações familiares. Relações essas que se iniciaram no afeto e que muitas vezes acabam na separação, no distanciamento.
Como resgatar o que se perdeu, onde ficaram o respeito, o afeto, o companheirismo, a cumplicidade?
Há algumas décadas a família tem mudado de configuração, a premissa “até que a morte os separe” já não tem tanto peso, pois muitas vezes a separação é dar a oportunidade de felicidade e liberdade ao outro.
O processo do ensinamento aos filhos da convivência com os outros, a transmissão da história, tradições e hábitos familiares bem como o repasse dos valores de cada época, das virtudes, da moral, dos princípios do grupo familiar, entre outros aspectos, se fazem importantes para explicar até os temperamentos e visões de mundo, muitas vezes tão diversas e diversificadas, nas relações familiares.
Conviver, não é simples e nem tarefa fácil.
Dispende vontade, atenção, respeito e aceitação. Muitos mal-entendidos acontecem e muitas vezes põem a perder toda uma existência construída e verificada na memória de toda uma vida. Portanto, avaliar, dialogar com clareza e honestidade são ferramentas importantes para o bem viver.
Alguns ambientes, são fator de estresse contínuo e podem nos colocar em constante frustração, podendo até nos adoecer e nos colocar sem a pró-atividade necessária para o enfrentamento dos desafios cotidianos. Os conflitos são inerentes ao desenvolvimento humano. Têm um movimento e intensidade próprios e variam nos diferentes grupos. A relação em família é complexa, pois cada ser é singular e único. Tem sua própria história, temperamento, composição genética.
Vemos também, no jogo relacional, alianças e luta por “lugares”, jogos de poder, percepções, necessidades, conflito de interesses, desejos. E, também conflitos “submersos”, situações mal resolvidas.
Portanto, a comunicação, o diálogo, deixar as questões claras e explicitadas, são caminhos que poderão proporcionar relações familiares mais leves, em que o afeto se sobreponha ao rancor, aos medos, às separações.
“Uma crise séria pode ser o ponto de partida para interromper as situações mal resolvidas e os sentimentos que estão velados, poderão vir à tona”.
Mas, “uma estratégia importante para iniciar a resolutiva dos conflitos, será deixar vir à tona, o enfrentamento dos fantasmas do passado”. Por isso, a psicoterapia é um instrumento essencial para alavancar essa possibilidade.